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Um pouquinho sobre sustentabilidade na moda

O que é sustentabilidade?


A sustentabilidade é um tema que está cada vez mais em evidencia. Está presente em diversos âmbitos de nossa vida. É foco de pesquisas em inovação nos meios acadêmicos, nas empresas, nos meios de comunicação, etc. Principalmente, por conta dos desequilíbrios ambientais e catástrofes naturais que vêm ocorrendo, infelizmente, com mais frequência. São respostas das ações provocadas pela ação humana no decorrer dos séculos.




O conceito sustentável designa uma comunidade ou sociedade, ambiente social, que satisfaz suas necessidades e aspirações, mas que não compromete a satisfação de necessidades das gerações futuras. A sustentabilidade está diretamente relacionada aos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais e busca provisionar as necessidades do momento presente sem suprimir as necessidades das gerações futuras.

O tema despontou no ano de 1972, quando foram questionados os diversas impactos ambientais causados pelo homem, com o relatório chamado “Os Limites do Crescimento” na primeira conferência ambiental, sediada em Estocolmo. A partir daí, desencadearam-se uma série de regulamentações ambientais em diversos países, principalmente na Europa e países ricos, e começou a ser discutido e difundido na sociedade.





Esse relatório foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores do Massachusetts Instituteof Technology (MIT). As conclusões do relatório, coordenado por Dennis L. Meadows (daí também ser conhecido como Relatório Meadows), alertavam para os limites da exploração dos recursos naturais. Foi de enorme repercussão tanto nos meios acadêmicos como na sociedade em geral.

O conceito de sustentabilidade está apoiado em três pilares básicos, é preciso entendê-los como três facetas interdependentes que sustentam a dinâmica de satisfação das necessidades presentes sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras. A verdadeira transformação só poderá ocorrer se houver equilíbrio entre as estruturas social, ambiental e econômica.

Pilar Social: Está relacionado ao capital humano e as comunidades envolvidas direta e indiretamente. Os principais pontos a serem trabalhados são salários justos e igualitários entre os gêneros, estar adequado à legislação trabalhista, propiciar ambiente de trabalho seguro e saudável aos funcionários.

Pilar Ambiental: Diz respeito ao meio natural. Nesse sentido, os esforços são direcionados em respeitar a legislação ambiental local. Caso não existam leis que protejam o meio natural, como ocorre em diversos países em desenvolvimento, deve-se pressionar os governos para implementação de normas que resguardem os sistemas naturais. É responsabilidade das empresas terem consciência da quantidade de dióxido de carbono emitido por seus processos e planejar formas de repor os recursos ou diminuir o máximo possível o uso de matéria prima virgem.

Pilar Econômico: Temas relacionados à produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Todo empreendimento deve ser viável economicamente, se pagar, gera lucro e bem estar. O pilar econômico está ligado a dois eixos principais, desenvolvimento econômico atrelado à manutenção do bem estar social e preservação do meio natural.





Sustentabilidade na indústria da moda


A indústria da moda é considerada o segundo maior poluidor do planeta. Segundo especialistas, 98 milhões de toneladas de petróleo por ano são usados para a produção de fibras sintéticas, usados em inseticidas e pesticidas das plantações de algodão e produtos químicos de alta toxicidade em processos de acabamento dos tecidos. Estima-se, caso continue em crescente produção, que até 2050 o consumo de petróleo no setor da moda chegue a 300 milhões de toneladas por ano. A participação em porcentagem na produção de dióxido de carbono passe de 2% atual para 26% e o despejo de 22 milhões de toneladas a mais de micro plástico no oceano em 30 anos.





O algodão, mesmo sendo uma fibra natural, em seu cultivo utiliza 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas produzidos no mundo por ano, com óbvios impactos no solo e na água, na saúde dos trabalhadores e comunidades próximas. A viscose, fibra artificial muito usada em todo o mundo, é produzida por meio de processos químicos a partir da celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos. O consumo de água pela indústria têxtil é 79 bilhões de metros cúbicos por ano, essa quantidade corresponde a 32 milhões de piscinas olímpicas.

A sustentabilidade pode ser colocada como maior ponto crítico para a indústria da moda, pois faz repensar seus métodos e processos desde seus mínimos detalhes até seus sistemas de valores e relações que estabelecem com os ecossistemas e os seus trabalhadores. Dessa forma, a sustentabilidade na indústria da moda, por meio de sua estrutura global, pode ser uma grande propulsora de mudanças radicais dentro do sistema de moda, envolvendo consumidores e todos que trabalham direta e indiretamente.




Onde foi parar nosso bom senso?


Com o crescimento de um quinto da população em apenas em cinco anos, entre 2000 e 2015, junto com crescimento da oferta de roupas baratas do sistema fast fashion (alta exploração dos trabalhadores e do meio ambiente), houve o desperdício de 450 bilhões em roupas que foram usadas poucas vezes e descartadas em seguida. Atualmente, apenas 1% dos resíduos têxteis é reaproveitado e transformado em roupas novas.




Precisamos compreender o tamanho do desastre global que a indústria da moda comanda. Em 2013 ocorreu a catástrofe do Rana Plaza. Um prédio de três andares em Bangladesh, com diversas confecções, que atendiam marcas internacionais desabou e matou 1.134 trabalhadores. Houve uma comoção internacional e os olhos do mundo focalizaram os diversos problemas trabalhistas e ambientais produzido pela indústria da moda em países pobres como Bangladesh e China. Países onde não há leis ambientais e trabalhistas eficazes que protejam os trabalhadores e crianças. Lugares com mão de obra muito barata e sem multas ou restrições no uso de produtos químicos tóxicos, que são despejados sem devido tratamento nos rios utilizados pela população. Desde então, vem ocorrendo um movimento em busca de informações detalhadas sobre quem fez nossa roupa, em que condições de trabalho e como são feitas nossas roupas, aprofundando a problemática indo até a origem e condições de produção das fibras têxteis, matérias primas de nossas roupas.




Essas campanhas são lideradas principalmente pelo movimento Fashion Revolution. Surgiu em 2014 quando instituíram o dia da queda do Rana Plaza, 24 de Abril, como o Fashion Revolution Day (dia da revolução da moda). Movimentando ações físicas e online auto-organizadas em diversos países, com ajuda voluntária de representantes espalhados pelo globo. Qualquer pessoa pode organizar e cadastrar seu evento no site oficial do movimento.

Por outro lado, a indústria da moda mesmo depois de sete anos de maior pressão por boas práticas, continua, em boa parte, sem transparência sobre suas práticas relacionadas às questões trabalhistas, ambientais e origem das fibras. Agora temos, cada vez mais, informações que nos possibilitam maior consciência de como nossos hábitos e escolhas podem impactar nosso futuro. Devemos entender de que forma a indústria da moda está destruindo o planeta. E, como poderosa indústria, com uma legião de consumidores de proporção global, tem capacidade de impactar positivamente e acelerar novos caminhos rumo ao modelo circular e regenerativo.



Existe Luz no fim do túnel!


Vemos movimentos importantes como na semana de moda de Nova York em setembro do ano passado, com o primeiro desfile de moda neutro em carbono da designer de moda de luxo Gabriela Hearst. No mesmo período, a Gucci anunciou que ficaria neutra em carbono. O conglomerado de moda de luxo Kering, dono das marcas Saint Laurent, Balenciaga e Bottega Veneta, anunciou pouco depois que todo o seu grupo compensaria 2,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

A semana de moda de Copenhague em janeiro desse ano trouxe uma nova forma, mais radical de pensar sobre moda, sem abandonar o formato tradicional de desfile. Foi lançado um plano de ação focado na sustentabilidade. As marcas participantes devem cumprir uma série de metas ou serão excluídas da programação oficial. As marcas terão um prazo de três anos para se adequarem aos 17 padrões de sustentabilidade. Como exemplo, usar pelo menos 50% de têxteis orgânicos ou reciclados em suas coleções; criação de cenários com zero desperdício para os desfiles; e comprometendo-se a não destruir roupas que não forem vendidas (prática realizada por marcas de luxo que incineram (!!) seus estoques parados, alegando ser uma forma de proteger a propriedade intelectual, manter a exclusividade, evitar a falsificação para não afetar a imagem da marca). Garrafas plásticas já são proibidas e o plano é reduzir as emissões de carbono em 50% e tornar-se zero desperdício até 2022.




"Todos os participantes do setor, incluindo as semanas da moda, devem ser responsáveis ​​por suas ações e estar dispostos a mudar a maneira como os negócios são realizados. O prazo para evitar os efeitos devastadores das mudanças climáticas no planeta e nas pessoas é de menos de uma década, e já estamos testemunhando seus impactos catastróficos hoje. Simplificando, não pode haver status quo. ” Cecilie Thorsmark (chefe-executiva do Copenhagen Fashion Week)

No âmbito nacional o Brasil Fashion Week desponta como um dos principais eventos de moda sustentável. Esse ano irá para quarta edição colocando em pauta a “moda sustentável, consciente, ecológica, ética, slow”. Ocorre no mês de novembro em São Paulo, reunindo marcas que posicionam a sustentabilidade como prática central de suas ações. Durante três dias ocorrem desfiles, palestras, workshops e diversas ações voltadas para profissionais da área, estudantes, acadêmicos, empreendedores e ativistas ambientais. A ultima edição de 2019 teve recorde de público com mais de 7 mil participantes.

“(...) Para mudanças sistêmicas acontecerem, todos os setores devem integrar o debate.” Organização Brasil Eco fashion Week

O movimento em direção à sustentabilidade preconiza o engajamento de todos os setores da sociedade, indústrias, empresas, indivíduos e instituições, em um elo interdependente. Em nível individual consumir de forma consciente, consertar, reutilizar, trocar e reprocessar são os caminhos mais viáveis. Porém precisamos fazer pressão para que as empresas e indústrias que operam em nível global, as que mais poluem, tomem consciência e também façam a sua parte.




Esses são alguns dos assuntos que serão abordados e trabalhados em nosso curso de moda sustentável, Moda para Mudança.


Escrito por Gilmara Pires, professora de modelagem feminina plana e livre da ESCA. Criadora do curso Moda para Mudança, pesquisa o tema de sustentabilidade na moda há mais de quatro anos. Trabalha com figurino e sob medida, modelista e designer criativa entusiasta dos novos rumos regenerativos e geradores de bem estar na moda. Tem certeza absoluta que a moda pode contribuir na construção de um mundo melhor e se sente realizada em trabalhar nessa mudança. É Técnica Têxtil em confecção (2012), Tecnóloga em Produção do Vestuário (2017) e pós-graduanda em Design de produto de moda, todos no Senai CETIQT.

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